Ser criança pode ser muito bom quando
tomamos como parâmetro o mundo adulto em que vivemos: as cobranças, exigências,
a falta de tempo pra se divertir. Mas, lembrar-se da infância pode ser também muito
triste, e porque não dizer, traumático. Hoje escrevo, não pra dizer que meu
passado me condena, mas pra dizer que, às vezes, ser criança é mais difícil do
que ser adulto.
Adultos insatisfeitos sabem dialogar
e resolver seus problemas; são independentes e podem se afastar daqueles que
lhes incomodam; são simplesmente adultos, e, em último caso, sabem recorrer aos
tribunais. As crianças não, e isso aprendi na minha graduação em Psicologia. Quando insatisfeitas com alguém, elas gritam,
mordem, batem, xingam (daí apanham dos pais, são suspensas das aulas, expulsas
do colégio, tidas como hiperativas); inventam desculpas pra faltar aula e tiram
notas vermelhas no boletim (daí são tidas como mentirosas, que não gostam de
estudar, que são burras, incapazes); ou se calam, fingem que isso não as incomoda,
fazem palhaçada pra se sentirem divertidas (são tidas como quietinhas,
tranquilas, que não dão trabalho). Esta era eu, um misto disso.
Era? Doce ilusão...
Durante todo o colegial fui chamada
de feia, gorda, baleia, bola, e por muitas vezes vi meu nome estampado em
paródias e músicas pejorativas. Até hoje, lembro-me de todas as músicas (do início ao fim), de quem
as cantou, onde cantaram, de todos que eram coniventes com isso e de todos que
deram risada. São cenas que nunca saíram (nem sairão) da minha cabeça. E
lembro-me com tristeza, com ódio, com raiva, com sede de vingança... Desejando
o “com ferro será ferido” pra cada mauricinho e patricinha que por anos fui
obrigada a conviver... Desejando mandar a conta do psicólogo pra cada um deles.
Hoje, aos 21 anos, malho todos os
dias, faça chuva ou faça sol, cansada ou não, de tornozelo ou pulso torcido. E
malho até doer, até fatigar, até ficar tonta de tanto pegar peso ou de tanto
correr. Todos os dias, penso duas vezes antes de cada refeição, no que vou ou
não comer, no quanto isso vai me engordar ou não. Todo dia me peso, e cada
mínima grama a mais acaba com meu dia. Não, a culpa não é minha!
Neste Dia das Crianças quero alertar
aos pais que a sua criança pode estar sofrendo neste exato momento, escondidinha
e calada, dando graças a Deus que hoje é feriado e ela não precisou ir pra
aula. Olhem essas crianças, conversem com elas, percebam as mudanças
comportamentais que elas apresentam, e vejam isso como sintoma, não como birra! Essa criança tem todas as
possibilidades de lembrar-se da infância com saudades e ter sim um “Feliz dia
das antigas Crianças”... Por favor, não a permita sentir o contrário.
Feliz dia das Crianças!




